Sobre o excesso de futuro num corpo que só tem o agora.
A ansiedade, a clareza emocional e a regulação são três forças que atravessam o nosso dia a dia, mesmo quando não lhes damos nome. Já sentiu aquela palpitação no peito, como se o coração fosse saltar para fora? Uma sensação de que o ar está a acabar e a respiração se torna curta e ofegante, ao ponto de nos impedir de dizer o que sentimos. Surge aquele frio na barriga, que vem e vai intermitentemente, acompanhado de dor e enjoo. Há também a tontura, como se o chão estivesse a escapar-nos dos pés. Sentimos a boca seca, o suor frio nas mãos e, por fim, um cansaço extremo — mesmo após uma noite de sono.
Esta é a experiência de todos nós que, em algum momento, encontramos esse hóspede que não bate à porta; ele chega sem pedir licença e instala-se por um tempo, fazendo tudo parecer um grande nó que precisa de ser desatado. É a sensação de algo familiar — um “não sei o que está para acontecer” — que parece exigir uma resolução imediata.
Quando a Incerteza se Torna Paisagem — ansiedade e clareza emocional
Vivemos no que Zygmunt Bauman chamou de Medo Líquido, no qual as ameaças são difusas e a incerteza é a única constante. Como explica Robert Leahy em Livre de Ansiedade, a nossa mente tenta “ler o futuro” porque não suporta a falta de garantias. No entanto, como bem observou Viktor Frankl em Em Busca de Sentido, a nossa liberdade não está em controlar o que acontece, mas na postura que escolhemos assumir diante do que não podemos mudar.
Estes desconfortos físicos não indicam um erro do organismo, mas sim a linguagem do seu corpo sinalizando que algo precisa de ser escutado. Na psicologia, nomeamos esse fenómeno como somatização: o momento em que a angústia psíquica, por não encontrar palavras que a traduzam, transborda para a carne na forma de palpitações e falta de ar. Esse estado de hipervigilância é o que transforma o “não saber” numa ameaça real, ativando um sistema de alerta que nos prepara para uma luta contra um inimigo invisível.
Assim, o corpo torna-se o abrigo desse hóspede chamado ansiedade — ou, como prefiro dizer, esse excesso de futuro num corpo que só tem o agora. Ela não habita apenas os nossos pensamentos; ocupa os nossos músculos e pulmões, convertendo a incerteza do amanhã num “nó” presente que exige, acima de tudo, a nossa atenção e o nosso acolhimento.
A Dança com o Invisível — ansiedade e regulação
No fundo, a ansiedade e a busca por clareza emocional revelam o nosso desespero em tentar ler as páginas que a vida ainda não escreveu. Essa resistência em aceitar o improviso da vida é o que nos faz exigir um roteiro completo, com as falas decoradas e a garantia de um final feliz. No entanto, a vida não se deixa ensaiar.
Quando a nossa mente acelera, ela entra num modo de simulação: criamos catástrofes imaginárias como se estivéssemos num simulador de voo. Tentamos segurar o manche com toda a força, acreditando que, ao antecipar o pior, ganharemos algum controlo sobre a tempestade.
O problema é que este esforço desesperado consome toda a nossa energia psíquica; estamos a desgastar as nossas asas antes mesmo de o voo real começar. Como dizia Kierkegaard, essa é a “vertigem da liberdade” — o susto de perceber que as escolhas são nossas e que o horizonte, por ser aberto demais, nos assombra com as suas infinitas possibilidades.
O Alerta Como Função — regulação emocional na prática
Este é o momento em que a regulação emocional se torna essencial para compreender o que o corpo tenta comunicar. Muitas vezes, tratamos a ansiedade como uma falha do sistema ou uma inimiga que precisa de ser expulsa a todo o custo. No entanto, como propõe o modelo de Aaron Beck, a ansiedade não é um defeito, mas, um sistema de proteção que se tornou sensível demais. É como um alarme de incêndio que, por estar hiper-reativo, dispara ao menor sinal de fumo na cozinha, mesmo quando apenas estamos a torrar uma fatia de pão. O alarme é útil, mas a sua calibração está desajustada.
Em vez de perguntar “como me livro disto?”, experimente observar a função desse alerta. Sob a ótica da Terapia Cognitivo Comportamental, podemos questionar: “Qual é o perigo que a minha mente está a tentar prever agora? Que pensamento automático está a disparar este aperto na garganta?”. Quando nomeamos o pensamento, começamos a baixar o volume do alarme.
Aprendi que o caminho não é lutar contra a onda — pois a luta apenas reforça ao cérebro que o perigo é real —, mas sim praticar a aceitação da experiência. Quando o ritmo cardíaco sobe e o mundo parece acelerar, eu procuro a âncora. Não a procuro no amanhã — que é o terreno das distorções e das suposições —, mas no que é tátil e real: a textura da cadeira onde estou sentada, o calor da caneca que aquece as minhas mãos ou o ritmo da minha respiração. Esse sopro, embora curto, é o fio invisível que me devolvem ao presente.
O Convite ao Agora
A humanidade atravessa-nos a todos. Enquanto a psicologia nos oferece as ferramentas — o manejo cognitivo, a regulação emocional e a compreensão os gatilhos —, a poesia oferece-nos o consolo.
Se também sente esse “nó”, saiba que não é preciso desatá-lo de uma só vez. Às vezes, basta olhar para ele com um pouco mais de gentileza. A ansiedade não define quem somos; ela é apenas uma nuvem passageira num céu que permanece vasto e azul, logo atrás do nevoeiro.
Que possamos, hoje, habitar o presente. Mesmo que ele pareça apertado. Mesmo que ele seja incerto.
A ansiedade diz que você está sozinho no futuro. A educação emocional prova que pode estar acompanhado no agora.
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